A IA é uma ameaça para as finanças descentralizadas?

Modelos avançados de IA ameaçam toda a arquitetura da DeFi. Eles já existem e, com o tempo, vão ficar mais acessíveis.

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Patrick Dike-Ndulue
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O ex-CTO da OpenZeppelin, Manuel Aráoz, sugeriu a amigos e familiares que considerassem sair da Aave, MakerDAO e Compound. Ele explicou que agentes de codificação baseados em IA hoje já são “sobre-humanos” na identificação de vulnerabilidades, levantando preocupações.

A IA já é capaz de ameaçar toda a arquitetura das finanças descentralizadas. Esses modelos existem hoje e, com o tempo, vão ficar mais acessíveis. Cada avanço na IA é um avanço para os dois lados. Defensores ganham detecção de ameaças mais inteligente, auditorias melhores e respostas mais rápidas. Atacantes têm as mesmas vantagens aplicadas ao contrário: reconhecimento mais sofisticado, engenharia social aprimorada, exploração de vulnerabilidades mais ágil. A diferença é que os defensores precisam acertar sempre. Os atacantes só precisam acertar uma vez.

Vamos discutir como ataques assistidos por IA ameaçam a DeFi e as ferramentas que protegem seu dinheiro.

 

Projeto Glasswing

A Anthropic restringiu o Mythos dentro do Projeto Glasswing, uma coalizão de cerca de 40 organizações, incluindo JPMorgan, Goldman Sachs, Amazon, Apple, Microsoft e CrowdStrike, que agora usam o modelo exclusivamente para segurança defensiva. A empresa destinou US$ 100 milhões em créditos de API para esses parceiros, além de US$ 4 milhões em doações diretas para organizações de segurança open-source.
 

O setor bancário tradicional está tratando o Claude Mythos como um evento sistêmico. Bancos centrais convocam reuniões de emergência, e Wall Street está integrando o modelo em seu stack de segurança.
 

O presidente do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, alertou publicamente que o Mythos pode revolucionar todo o universo do risco cibernético. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, reuniram-se com CEOs de Wall Street especificamente para discutir o modelo. O CEO do Goldman Sachs, David Solomon, disse a analistas que seu banco está hiper atento às capacidades ampliadas desses novos modelos.

Se essa é a resposta do mercado tradicional, o que a indústria cripto está fazendo diante dessa nova ameaça?

 

US$ 771 milhões perdidos em 2026

A indústria cripto perdeu US$ 771,8 milhões em hacks e explorações apenas nos primeiros quatro meses de 2026, em 47 incidentes distintos. Só em abril foram US$ 606 milhões em prejuízos, tornando-se o pior mês para roubos de cripto desde o ataque à Bybit em fevereiro de 2025.
 

Dois incidentes responderam pela maior parte dos danos de abril: o exploit de US$ 293 milhões na KelpDAO e a violação de US$ 285 milhões no Drift Protocol. Ambos foram ataques na camada de infraestrutura, e ainda não é possível confirmar se a IA teve participação.

A investigadora sênior da CertiK, Natalie Newson, identificou quatro principais categorias de ameaças para 2026: 

  • Phishing com IA e engenharia social via deepfake,
  • Ataques à cadeia de suprimentos em extensões de carteira para navegador,
  • Vulnerabilidades em infraestruturas cross-chain,
  • Ataques de drenagem de carteiras baseados em assinatura.

O Mythos só precisa executar essas ameaças conhecidas de forma mais rápida, barata e em escala. A violação da cadeia de suprimentos da Trust Wallet em dezembro de 2025 não exigiu IA. Mas imagine esse mesmo padrão de ataque automatizado, rodando continuamente contra todas as extensões da Chrome Web Store.

O que o Claude Mythos pode fazer?

Vamos deixar claro o que o Mythos realmente é, já que as análises vão do ponderado ao apocalíptico.

O Claude Mythos é um modelo de IA de fronteira, generalista, com capacidades excepcionais de programação, raciocínio e execução autônoma. Suas habilidades cibernéticas surgiram como consequência dos avanços em raciocínio e geração de código.
 

Em desafios avançados de Capture the Flag em segurança (tarefas que nenhuma IA conseguia resolver antes de abril de 2025), o Mythos acerta em 73% dos casos. A AISI criou algo ainda mais difícil para medir a ameaça real: "The Last Ones", uma simulação de ataque corporativo em 32 etapas, incluindo reconhecimento, movimentação lateral, roubo de credenciais, escalonamento de privilégios e domínio total da rede. O Mythos foi o primeiro modelo a completar todo o processo do início ao fim.
 

E a questão econômica? O desempenho do Mythos escala conforme o orçamento computacional. Nos testes, foram usados até 100 milhões de tokens de inferência. O desempenho continuou melhorando sem atingir um limite, sendo o único fator limitante o quanto o atacante está disposto a investir em tokens.

 

As fragilidades do setor cripto

Protocolos DeFi são smart contracts: software implantado em blockchains públicas, com código-fonte visível para qualquer pessoa. Essa transparência permite interações sem confiança, mas também significa que cada linha de código está disponível para análise por modelos do porte do Mythos. 

Esses modelos conseguem identificar vulnerabilidades sutis que ferramentas de análise estática não detectam e raciocinar sobre cadeias de exploração em múltiplas etapas — como manipular um oráculo em um contrato para criar uma condição de arbitragem em outro e, assim, drenar um pool de liquidez em um terceiro.

DeFi e smart contracts

O problema estrutural mais profundo é que a DeFi não consegue reagir tão rápido quanto o sistema financeiro tradicional. Um smart contract implantado é imutável por design; quando uma vulnerabilidade é descoberta, as opções são migrar lentamente para um novo contrato ou implementar pausas de emergência (o que é controverso).
 

A IA também comprime o tempo entre descoberta e exploração para horas ou minutos, enquanto a correção leva dias ou semanas. Esse descompasso explica por que o evento de contágio da Aave em abril de 2026 aconteceu como aconteceu. Um exploit na KelpDAO desencadeou US$ 5 bilhões em saques em pânico em todo o ecossistema de empréstimos em poucas horas. O hacking assistido por IA ameaça a composabilidade que faz a DeFi funcionar, pois o risco de cada protocolo agora inclui os riscos de todos os outros com os quais interage.

 

Carteiras de software

Uma parcela significativa do mercado cripto também armazena chaves privadas em extensões de navegador que compartilham o mesmo ambiente de execução de todo o software do dispositivo.

Uma carteira de extensão é um aplicativo JavaScript rodando dentro do navegador, no sistema operacional, em um dispositivo conectado à internet. A chave privada é armazenada como dado em um processo de software, compartilhando memória, ambiente e recursos do sistema com todos os outros aplicativos do aparelho.

Não se trata de criticar a qualidade de código de nenhuma carteira específica. É uma realidade arquitetural: a segurança da carteira de software está atrelada à segurança de todos os sistemas com os quais ela interage. A IA vai ficar cada vez melhor em encontrar falhas em cada um desses sistemas.

A análise da CryptoSlate mostrou que comprometimentos de carteiras pessoais responderam por 44% das perdas totais de cripto em 2024. Carteiras que combinam armazenamento de chaves em hardware com assinatura offline tiveram taxas de incidentes abaixo de 5%, contra mais de 15% para carteiras apenas de software.

Como as carteiras de hardware vão fazer a diferença

Os modelos de ataque que tornam a IA tão perigosa contra carteiras de software — reconhecimento autônomo, exploração em cadeia, pipelines de patch-para-exploit e comprometimento da cadeia de suprimentos — focam em um alvo que existe como processo de software acessível pela rede.

Uma carteira de hardware não é uma versão melhorada de uma carteira de software. É algo completamente diferente, com um modelo de ameaças fundamentalmente distinto. Tomando a Tangem como exemplo: um cartão Tangem contém um chip de elemento seguro certificado para resistir a ataques invasivos e não invasivos. Ao ativar o cartão, um Gerador de Números Aleatórios Verdadeiro dentro do chip cria sua chave privada. Por design, essa chave nunca sai do chip de forma não criptografada. Não pode ser extraída, lida ou transmitida.

As assinaturas acontecem dentro do elemento seguro. O resultado é uma transação assinada, transmitida via NFC. Você poderia apontar o Claude Mythos para toda a internet e deixá-lo rodar por um ano — ainda assim, ele não teria acesso à chave privada armazenada no chip seguro. Simplesmente não há caminho de rede ou processo de software para ser comprometido.

 

A ameaça da IA vai tornar as carteiras de hardware populares?

Antes, pensava-se que carteiras de hardware eram para quem tinha cripto suficiente para justificar o custo e a “inconveniência”. Se você tem US$ 500 em ETH, uma extensão de navegador já seria suficiente. 

A suposição era que a probabilidade de ser alvo estava ligada ao tamanho do saldo. Ataques sofisticados miravam grandes carteiras, então pequenos usuários passavam despercebidos. O hacking com IA derruba essa lógica, pois permite ataques em escala horizontal.
 

Um atacante humano escolhe alvos de forma seletiva porque seu tempo é limitado. Um pipeline de ataque assistido pelo Mythos vai rodar contra tudo. Quando o custo de escanear extensões vulneráveis, gerar iscas de phishing ou explorar CVEs conhecidas cai para centavos por tentativa, o atacante deixa de se preocupar se a carteira vale a pena. O foco passa a ser quantas carteiras podem ser drenadas por hora.


O preço de um kit de cartões Tangem é modesto perto do que as pessoas gastam em capinhas e películas para celular. Mas ele protege todos os ativos que você guardar ali contra a categoria de ameaça cibernética que mais cresce na história.
 

Então, a pergunta de hoje é: qual o custo de adquirir uma carteira de hardware em relação ao valor em cripto que você tem? Seu sistema atual de armazenamento de chaves vai sobreviver aos próximos dois anos de evolução da IA?

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Autor Patrick Dike-Ndulue

Senior editor covering crypto, onchain equities, and technology.

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Analisado por Stepan Nilov

Ex. Head of Comms and Public Relations.