Ordinals, BRC-20 e por que cem milionésimos de 1 BTC valem US$ 10.000

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Patrick Dike-Ndulue
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Um novo protocolo chegou à rede da primeira criptomoeda. Ordinals é uma inovação que permite criar algo semelhante a um NFT, ou seja, agora é possível armazenar imagens e outros tipos de dados na blockchain do Bitcoin sem usar um token especial ou sidechain.

A tecnologia, apresentada em janeiro de 2023, chamou imediatamente a atenção tanto de especialistas em cripto quanto do público geral, gerando burburinho e reações mistas na comunidade.

Bitcoin Ordinals: o que são e como funcionam?

Ordinals é um novo protocolo da blockchain do Bitcoin criado pelo ex-desenvolvedor do Bitcoin Core, Casey Rodarmor. Trata-se de um sistema de numeração que permite atribuir um ordinal (número de série) a cada satoshi, possibilitando rastrear fragmentos de bitcoins durante as transações.

Um satoshi (SATS) é a menor unidade de um bitcoin. Um BTC equivale a 100 milhões de satoshis.

A inovação também torna cada satoshi único ao adicionar dados extras a eles, chamados de inscrições. Os números de série podem ser vinculados a imagens, vídeos, textos e mais. O protocolo Ordinals, portanto, permite criar algo como um non-fungible token, conhecido como artefato digital, na blockchain do Bitcoin.

O Bitcoin Ordinals se baseia em três soluções técnicas.

  1. OP_return. Um recurso que adiciona uma outra saída às transações, que é comprovadamente impossível de gastar. Qualquer dado que não contenha criptomoeda pode ser armazenado na rede do Bitcoin, já que não é incluído no UTXO (unspent transaction output). Esses dados podem ser apenas metadados referentes a objetos como imagens ou vídeos.
  2. Taproot. Uma atualização (soft fork) da rede do Bitcoin lançada em 2021. Com o Taproot, a blockchain ficou mais privada e escalável, podendo utilizar contratos inteligentes mais complexos. A atualização também aumentou o limite de dados armazenados no OP_return de 80 bytes para 400 kilobytes.
  3. Ordinals. O protocolo que permite numerar satoshis.

Bitcoin Ordinals e NFTs: qual a diferença?

À primeira vista, há semelhanças óbvias entre os tokens não fungíveis e os artefatos digitais na rede do Bitcoin, mas essas tecnologias têm diferenças importantes.

  • Tokens não fungíveis utilizam padrões específicos para interação com a rede (como ERC-721 e ERC-1155), enquanto as informações dos NFTs ficam em contratos inteligentes. As "assinaturas" do Bitcoin são gravadas diretamente na blockchain, tornando-as 100% imutáveis, ao contrário dos NFTs, que podem ser alterados com novos dados ou características.
  • Um artefato digital não é um token separado como um NFT — ele está atrelado a um satoshi específico.
  • Os equivalentes de NFTs baseados em Bitcoin são adicionados diretamente aos blocos da rede, enquanto NFTs normalmente contêm links para informações fora da blockchain.

O futuro do Bitcoin Ordinals

Ordinals gerou grande entusiasmo e virou sucesso imediato. Por isso, muitos especialistas preveem que a tecnologia continuará evoluindo nos próximos anos, com melhorias em funcionalidades, maior variedade de aplicações e surgimento de projetos de infraestrutura.

Já existe crescente interesse nos Ordinals devido ao novo padrão de token BRC-20.

O padrão BRC-20 e os usos dos tokens de nova geração

Em março de 2023, um desenvolvedor anônimo usando o pseudônimo “domo” propôs o padrão experimental BRC-20, que permite criar novos tokens na blockchain do Bitcoin.

Diferente do padrão ERC-20 da rede Ethereum, o BRC-20 não utiliza contratos inteligentes. Ele é baseado no protocolo Ordinals. Os tokens são criados ao adicionar arquivos de texto JSON à rede, definindo características como oferta total e limite de emissão. O BRC-20 é bem mais simples que o ERC-20, devido à limitação proposital da programabilidade da rede do Bitcoin.

O primeiro token a usar o padrão BRC-20 foi o ORDI. Em 12 de junho, estava cotado a US$ 4,81, com capitalização de mercado pouco acima de US$ 100 milhões. Ele está listado em grandes CEXs (exchanges centralizadas) como OKX, Gate.io e Huobi.

Tokens padrão BRC-20 podem ser transferidos entre carteiras, com taxas cobradas em satoshis.

A plataforma ordinalswallet.com foi lançada logo após o padrão, facilitando a negociação de tokens BRC-20 e “inscriptions”.

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Esses ativos também podem se tornar parte central de um ecossistema financeiro descentralizado baseado na rede do Bitcoin. Há muitos usos potenciais para criptoativos desse tipo: integração com DEXs, plataformas de yield farming e landing platforms.

Pontes de rede entre tokens BRC-20 “wrapped” e outras blockchains devem ser um passo importante para o desenvolvimento do ecossistema DeFi na rede do Bitcoin.

A caça aos satoshis raros

Após desenvolver o protocolo Ordinals, Casey Rodarmor propôs uma solução para identificar satoshis “especiais”. O método usa eventos pré-definidos na evolução do Bitcoin, atribuindo um nível de raridade ao primeiro satoshi minerado nesses eventos.

Assim surgiu o Rodarmor Rarity Index, que propõe cinco níveis de raridade. Segundo o índice, o primeiro satoshi…

  • de cada novo bloco da rede é classificado como “Uncommon” (incomum);
  • após a mudança no nível de dificuldade da rede (a cada 2016 blocos, cerca de 4 vezes ao ano, representando um satoshi a cada 1,26 trilhão) é “Rare” (raro);
  • após um halving é “Epic” (épico);
  • após cada ciclo, ou seja, a cada 6 halvings, é “Legendary” (lendário).

O satoshi não gasto do primeiro bloco do Bitcoin (o bloco gênese) criado por Nakamoto recebe o status de “Mythic” (mítico).

Há outros satoshis únicos, como os que fizeram parte dos 10 BTC enviados por Nakamoto a Hal Finney em janeiro de 2009 (primeira transação de bitcoin), e os satoshis da transação feita por Laszlo Hanyecz, que realizou a primeira compra com cripto ao pagar 10.000 BTC por duas pizzas em maio de 2010.

A busca por essas moedas está ganhando força, e alguns entusiastas de cripto estão dispostos a pagar mais por esses satoshis do que por um bitcoin inteiro.

Um grupo de colecionadores chamado Rare Satoshi Society surgiu online. Na “caça ao tesouro”, eles já vasculharam mais de US$ 1 bilhão em Bitcoin, sacando bitcoins de exchanges, examinando-os em busca de moedas raras e devolvendo os satoshis comuns.

O que a comunidade cripto pensa sobre os ordinals?

A recepção aos Ordinals foi bastante dividida. Alguns defensores do Bitcoin acreditam que a simplicidade da rede deve ser preservada a todo custo, e que seu verdadeiro propósito é apenas armazenar e transferir criptoativos. Outros, porém, acham que a blockchain do Bitcoin precisa evoluir e ampliar sua funcionalidade.

Como as inscrições agora disputam espaço nos blocos com transações padrão, as taxas estão aumentando. Os defensores dos Ordinals não veem problema nisso e acreditam que esse cenário vai incentivar os mineradores, especialmente no futuro, quando as recompensas por bloco se tornarem insignificantes e os nós passarem a lucrar principalmente com as taxas.

Os Ordinals também provocaram reações negativas entre muitos desenvolvedores de blockchain, já que o protocolo permite a criação em massa de meme tokens e NFTs na rede. Alguns sugeriram lançar um sistema de filtragem, semelhante a um filtro de spam, para bloquear transações envolvendo inscrições.

O desenvolvedor do Bitcoin Core, Ali Sherif, por exemplo, afirma que o protocolo Ordinals levou ao abuso da rede, pois a blockchain nunca foi pensada como plataforma para meme tokens e NFTs.

Em resumo, o Bitcoin Ordinals é uma tecnologia interessante e controversa que pode mudar paradigmas em torno da principal criptomoeda. Diante da polarização de opiniões, é provável que o Bitcoin Ordinals continue gerando debates acalorados nos próximos anos.

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Autor Patrick Dike-Ndulue

Senior editor covering crypto, onchain equities, and technology.

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Analisado por Rukkayah Jigam

Writer & editor covering digital assets and product updates.