Como ataques à cadeia de suprimentos burlam o elemento seguro

Por que a ameaça mais subestimada à segurança das carteiras acontece na camada de software.

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Patrick Dike-Ndulue
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Artigos anteriores desta série analisaram categorias de ataques contra o próprio elemento seguro: injeção de falhas, análise invasiva de chip e técnicas de canal lateral. Essas são ameaças reais, mas pertencem a um nível de ataque que exige muitos recursos, equipamentos especializados e direcionamento individual. A maioria dos usuários nunca irá enfrentá-las.
 

Supply chain attacks são diferentes. Não exigem laboratório nem acesso físico ao dispositivo. Não precisam burlar o elemento seguro, pois atuam nas camadas de código acima do chip. Um único ataque bem-sucedido pode afetar milhares ou milhões de usuários ao mesmo tempo. O custo-benefício torna esses ataques muito mais atraentes para uma gama maior de atacantes do que qualquer técnica em nível de hardware.
 

Este artigo examina o risco da cadeia de suprimentos no contexto de software, usando dois incidentes documentados envolvendo um dos fabricantes de carteiras de hardware mais usados do mundo.

O que realmente é um ataque à cadeia de suprimentos

Em vez de mirar diretamente o usuário final, os atacantes exploram uma relação de confiança como vetor para o ataque. Isso envolve comprometer algo de que o usuário depende, como uma biblioteca de software, o mecanismo de atualização de firmware ou um canal de distribuição.

Nas carteiras de hardware, os vetores de cadeia de suprimentos mais relevantes são:

  • Firmware do dispositivo entregue por atualização remota: atualizações que o fabricante envia para todos os dispositivos, automaticamente ou com aprovação do usuário.
     
  • Bibliotecas de aplicativos complementares: códigos que acompanham o software de desktop ou mobile da carteira.
     
  • Bibliotecas JavaScript de terceiros: códigos dos quais os serviços conectados à web do fabricante dependem, vindos de repositórios públicos como o NPM.
     
  • Distribuição e logística: interceptação física dos dispositivos antes de chegarem ao usuário final.

O perigo desses vetores está na escala. O atacante investe uma vez e afeta todos que utilizam o componente comprometido antes que ele seja detectado e corrigido.

O elemento seguro não oferece proteção contra nenhum desses vetores, pois esses ataques nunca exigem violar o chip. Eles atuam antes dele. A chave permanece protegida dentro do elemento seguro, enquanto todo o entorno é manipulado.

Ataque à cadeia de suprimentos: Connect Kit (dezembro de 2023)

Em 14 de dezembro de 2023, um ataque à cadeia de suprimentos contra o Connect Kit da Ledger, uma biblioteca JavaScript usada por aplicações descentralizadas para integrar carteiras Ledger, resultou no roubo de entre US$ 484.000 e US$ 600.000 em ativos. O ataque durou cerca de cinco horas, com a drenagem ativa dos fundos concentrada em uma janela de aproximadamente duas horas. Dezenas de grandes protocolos DeFi foram afetados ao mesmo tempo.

A dinâmica de como isso aconteceu revela muito sobre onde a segurança das carteiras de hardware realmente falha na prática.

Como o ataque foi realizado

O Connect Kit da Ledger é uma biblioteca JavaScript open source publicada no NPM, o repositório Node Package Manager, canal padrão de distribuição de código JavaScript. Centenas de aplicações descentralizadas a integraram para permitir que seus usuários conectassem carteiras Ledger às interfaces.
 

O ponto crítico é que a Ledger distribuiu a biblioteca não apenas pelo mecanismo padrão de versionamento do NPM, mas também via CDN (Content Delivery Network), fazendo com que aplicações dependentes buscassem automaticamente a versão mais recente da biblioteca em tempo de execução, em vez de usar uma versão fixa.

Isso significava que, no momento em que uma nova versão era publicada no NPM, toda aplicação usando o carregador via CDN executava imediatamente o novo código, sem revisão, atualização manual ou período de segurança.

O atacante obteve acesso às credenciais de publicação no NPM de um ex-funcionário da Ledger por meio de phishing. O acesso desse ex-funcionário aos sistemas internos já havia sido revogado no desligamento, mas a chave de API do NPM não tinha sido.

Chaves de API ignoram a exigência de autenticação em dois fatores do NPM, o que significa que o atacante precisava apenas da chave, sem autenticação secundária.

Com acesso de publicação, o atacante enviou três versões maliciosas do Connect Kit (1.1.5, 1.1.6 e 1.1.7) contendo o malware Angel Drainer, um código que drenava carteiras ao criar solicitações de aprovação de transação maliciosas que, quando assinadas pelo usuário, transferiam ativos para a carteira do atacante.
 

Quando o carregador via CDN puxou automaticamente a versão mais recente, dApps afetados começaram a servir o código malicioso para seus usuários em minutos, sem necessidade de ação dos desenvolvedores.
 

A Ledger respondeu rapidamente, lançando uma versão corrigida em 40 minutos após o alerta interno e coordenando com a Tether para congelar os fundos roubados. O ponto desta análise é que o vetor de ataque existia e foi explorado.

Firmware atualizável como risco de cadeia de suprimentos

A polêmica do Ledger Recover (maio de 2023) destacou um risco de cadeia de suprimentos inerente a qualquer carteira de hardware com firmware atualizável. O serviço opcional de backup de seed da Ledger, que criptografava e transmitia fragmentos da seed phrase para três custodians via firmware, não foi um ataque, mas provou que uma capacidade preocupante existia.

Uma atualização de firmware, assinada e enviada pelo fabricante, pode instruir o elemento seguro a manipular e transmitir material sensível da seed. Como detalhamos em nosso artigo sobre o Ledger Recover, o secure boot protege apenas contra firmware de terceiros; não limita o que o fabricante pode implantar. Esse canal de atualização é um vetor de cadeia de suprimentos. 

Se a infraestrutura de assinatura do fabricante for comprometida, ou backdoors exigidos por governo via atualização forem forçados silenciosamente, os usuários não teriam como detectar isso antecipadamente.
 

O que acontece em um dispositivo com firmware atualizável?

Ao confiar em uma carteira de hardware com atualizações de firmware controladas pelo fabricante, você está confiando em:

  • As intenções do fabricante: que a empresa não irá, intencionalmente, enviar firmware que comprometa a segurança do usuário, agora ou no futuro, independentemente de pressões comerciais, exigências regulatórias ou mudanças de controle.
     
  • Infraestrutura de chaves de assinatura do fabricante: que as chaves privadas usadas para assinar o firmware estão devidamente protegidas e nunca foram comprometidas. Uma chave roubada permitiria a um atacante enviar firmware autenticado para todos os dispositivos.
     
  • Toda a cadeia de distribuição de atualização: cada canal envolvido no envio do firmware do desenvolvimento ao dispositivo.
     
  • Processos internos do fabricante: controles de acesso de funcionários, procedimentos de desligamento, requisitos de revisão de código e sistemas de build seguros.
     
  • O ambiente regulatório: fabricantes estão sujeitos às leis de sua jurisdição. Um governo com autoridade pode, em tese, obrigar o envio de firmware que atenda a interesses estatais.

Nada disso significa que firmware atualizável seja indefensável como arquitetura. Significa que a defesa está distribuída em uma superfície de confiança maior e mais complexa do que a maioria dos usuários percebe.
 

A alternativa: firmware imutável

Algumas carteiras de hardware, como a Tangem, usam firmware gravado no dispositivo na fabricação, que não pode ser atualizado por ninguém após sair da fábrica. Essa abordagem representa uma troca de segurança fundamentalmente diferente.
 

As vantagens são diretas: elimina-se a superfície de ataque da cadeia de suprimentos do firmware. Não há mecanismo de atualização a ser comprometido, nem chave de assinatura a ser roubada, nem pipeline a ser contaminado. O firmware implantado na fabricação é o que o dispositivo executa durante toda sua vida útil.
 

O fabricante não tem controle pós-venda sobre o comportamento do dispositivo, o que significa que também não há canal pelo qual ele poderia, voluntariamente ou sob pressão, modificar o que o dispositivo faz.
 

Uma auditoria independente de firmware por empresas como a Kudelski Security, Riscure e SlowMist pode confirmar que o firmware é confiável e realmente imutável. Usuários de dispositivos imutáveis devem confiar na qualidade da auditoria inicial e podem precisar trocar de hardware em caso de grandes mudanças de protocolo.

Considerações finais

Um ataque à cadeia de suprimentos não exige laboratório, análise de canal lateral ou acesso físico ao dispositivo.

Eles podem se espalhar de forma natural e eficiente para todos os usuários de todos os produtos afetados ao mesmo tempo. Os atacantes atuam em camadas que a maioria dos usuários nunca inspeciona, por mecanismos invisíveis ou presumidos como confiáveis.

Sempre verifique a autenticidade da carteira na primeira configuração, compre diretamente do fabricante ou de revendedores verificados e desconfie de qualquer aplicativo que peça para aprovar algo que você não reconhece. 
 

Referências

  1. Ledger Security Incident Report (Connect Kit, dezembro de 2023) – Blog oficial da Ledger
  2. Ledger responde às críticas sobre o novo serviço de recuperação de carteira – CoinDesk, 2023
  3. Ledger adia serviço de recuperação de chaves após polêmica – CoinDesk, 2023
  4. Supply Chain Attack – NIST CSRC Glossary
  5. Tangem anuncia segunda auditoria bem-sucedida de carteira de hardware (Riscure) – Blog Tangem
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Autor Patrick Dike-Ndulue

Senior editor covering crypto, onchain equities, and technology.

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Analisado por Rukkayah Jigam

Writer & editor covering digital assets and product updates.